Se procurarmos nas Letras uma figura representativa de certas formas superiores da nossa mentalidade seiscentista, se quisermos personificar a situação de um homem de formação religiosa ainda medieval mas com a consciência empírica das novas condições sociais e europeias da realidade social e económica portuguesa e procurando dramaticamente soluções para as contradições entre esta consciência e a mentalidade tradicional - o nome que ocorre naturalmente é o do padre jesuíta, pregador, missionário, diplomata, político e profético utopista, António Vieira (n. 1608-02-06 - f. 1697-07-18).A vida
Nascido em Lisboa, é levado aos 7 anos para a Bahia, onde o pai vai exercer a função de secretário da Governação. Estuda no colégio jesuíta desta cidade; com 15 anos foge aos pais para ingressar na Companhia de Jesus, e revela tão apropriados dotes, que três anos depois, findo o noviciado, era ele o encarregado de redigir o relatório anual dos trabalhos provinciais da Companhia (carta ânua) e já regia uma cadeira de Retórica. Em 1635 recebe ordens e inicia a sua carreira de pregador. Os Holandeses, que em 1624 se tinham apoderado durante alguns meses da Bahia, então capital brasileira, tentam novo golpe em 1638. Uma das mais famosas peças oratórias de Vieira foi o sermão Pela vitória das nossas armas, proferido no momento em que a situação parecia desesperada para os Portugueses.
Em 1641, juntamente com o filho do governador, vem trazer a Lisboa a adesão da colónia a D. João IV. Depressa sugestiona o ânimo do monarca e se torna o mais famoso pregador da corte. Utiliza estas duas posições como poderosas baterias políticas, apontando-as a favor de uma orientação que, embora difícil de vingar, era imposta pelas circunstâncias.
Com efeito, o P.e António Vieira recomendou uma política fundada no poder económico da burguesia mercantil, constituída pelos cristãos-novos. Com os capitais móveis e a organização comercial deste grupo, que abrangia uma rede internacional, intentou Vieira financiar a guerra da Independência. Mas para isso era necessário moderar a política inquisitorial de repressão e discriminação. E, evidentemente, esta política tinha contra si o Santo Ofício, que não representava apenas uma tradição já secular de intolerância religiosa, mas também uma rede extensa de gente a viver de confiscos e sinecuras, um escudo do grupo dominante tradicional contra a burguesia mercantil, e uma sentinela da ideologia tradicional amoldada na massa popular. Ainda assim Vieira obteve de D. João IV a criação da Companhia Geral do Comércio do Brasil (1649), que, à semelhança das congéneres rivais holandesas, gozava de monopólio comercial e cujo capital se manteve, durante vários anos, fora dos confiscos inquisitoriais. Vieira foi, deste modo, um precursor da política económica pombalina, antes de Colbert. Esta política tinha um reverso religioso: Vieira discutiu com os rabinos portugueses de Amesterdão, secretamente, a possibilidade de um acordo teológico prevendo um "Terceiro Estado da Igreja", após um segundo Advento do Cristo e o regresso dos Judeus dispersos à Palestina.
Entretanto, encarregou-se de várias e delicadas missões relacionadas com o financiamento, o armamento e a diplomacia da guerra da Restauração, junto de Mazarino, do Governo holandês e dos judeus emigrados, na Holanda e ainda em Roma. Nestas missões, conheceu alguns fracassos, resultantes não apenas das tremendas dificuldades e oposições a vencer, mas também talvez da desproporção entre os meios e a grandiosidade dos planos.
A sua fidelidade a D. João IV vai até ao ponto de tomar o partido dele contra a própria Companhia de Jesus. Na iminência de ser expulso da Companhia, aceitou uma missão no Maranhão, exílio que soube transformar em novo posto de combate. A partir de 1653, a sua actividade como superior dos missionários da Companhia tornou-se famosa, chegando a usar sete idiomas nativos na sua catequese, quer falando, quer escrevendo catecismos. A luta mais rija, porém, era a que opunha os Jesuítas aos colonos quanto ao problema da mão-de-obra. Aspirando a integrar os Ameríndios dentro do seu próprio sistema de influência, os Jesuítas tomaram a posição de defensores da liberdade dos nativos, acabando Vieira por sugerir aos colonos que substituíssem a mão-de-obra escrava índia pela africana, importada de Angola, à semelhança do que sucedia no resto do Brasil, de forma que os Índios na sua maioria ou totalidade ficassem reservados à Companhia. Mas a oposição dos colonos, apoiados pelas outras ordens religiosas do Maranhão, conduz finalmente à expulsão de Vieira e dos outros jesuítas em 1661.
Ora, em 1656 morrera D. João IV, seu principal arrimo político, o conde de Castelo Melhor imprimia ao governo uma orientação desfavorável aos Jesuítas (1662-67). Esta situação permitiu ao Santo Ofício processar Vieira (1665-67), condená-lo por opiniões heréticas expostas, segundo os Inquisidores, no seu livro Esperanças de Portugal, quinto império do mundo, primeira e segunda vidas de El-Rei D. João IV, no qual o acusado interpretava as Trovas do Bandarra e textos bíblicos como profecias da ressurreição de D. João IV, futuro imperador do Quinto Império, o Judeu-Cristão. Amnistiado depois da deposição de D. Afonso VI, parte em 1669 para Roma, onde novos êxitos como pregador (agora em língua italiana, junto do pontífice e da exilada rainha Cristina da Suécia, a protectora de Descartes) lhe servem para acreditar os seus esforços no sentido de levar a Santa Sé a tomar partido contra a Inquisição. Ao mesmo tempo tenta fazer vingar a constituição de uma Companhia portuguesa de comércio com a Índia, mais uma vez com capitais "cristãos-novos" e destinada a apoiar, mediante influência portuguesa, a missionação jesuíta no Oriente. Destas diligências resultou pelo menos uma eficaz campanha de desmascaramento do Tribunal do Santo Ofício, que chegou a ser suspenso pelo Papa, embora conseguisse depois restabelecer-se, já com o seu prestígio muito abalado. Em 1681 Vieira regressa definitivamente à Bahia. Aqui exerceu as funções de superior das missões em todo o Brasil e Maranhão, e nos últimos anos ocupou-se da edição dos sermões e cartas, e de dar a última demão a um livro de escatologia, Clavis Prophetarum, que era o desenvolvimento e a justificação teológica da ideia do Quinto Império, Terceiro Estado da Igreja ou Reino de Cristo consumado na Terra. Morreu com quase 90 anos, no Colégio da Bahia, onde fizera os seus estudos.
(in "CD-ROM História da Literatura Portuguesa", Porto Editora)

O Barroco e a literatura seiscentista
A cultura europeia, depois do entusiasmo pelos modelos da antiguidade grega e romana, adquiriu uma identidade própria que definiu o espírito renascentista. Os descobrimentos projectaram Portugal e Espanha e permitiram uma nova concepção de Mundo e de Homem. Mas o século XVII não aceitou ficar a contemplar o que se fizera no século anterior, embora em Portugal uma certa infecundidade tenha marcado a cultura. O País estava dominado pela corte filipina e pela Inquisição.
Note-se que é precisamente no século XVII que na história do pensamento surgem Galileu, Giordano Bruno, Pascal, Newton, Bacon, Bossuet, o empirismo de Hobbes ou Locke, e o racionalismo de Descartes, Malebranche, Leibniz ou Espinosa (filho de um judeu português, refugiado na Holanda devido à Inquisição); na pintura foram grandes os nomes de Rubens, Rembrandt, Van Dyck, Zurbarán, Velázquez, Murillo; na música Palestrina e, depois, Bach e Händel notabilizaram-se na polifonia; na literatura, sobressaíram nomes que marcaram quer o renascimento quer o barroco, como Shakespeare, John Milton, Cervantes, Góngora, Quevedo, Lope de Vega e Calderón, Corneille, Molière, Racine, La Fontaine (da Fábulas) ou o Padre António Vieira.
A etimologia do termo "barroco" não é consensual, mas a origem portuguesa é a mais seguida. Significa irregular e extravagante, tal como a espécie de pérolas irregulares, dos mares da Índia, de que deriva. Para alguns autores, como Benedetto Croce, o vocábulo vem de "baroco", uma das formas complexas de silogismo, na dialéctica escolástica. Introduzido, possivelmente, em França, é em Roma que, no volver do século XVII, passa a dar um novo rumo à arte. Borromini (1599-1667) e Bernini (1598-1680), a que se seguiram muitos outros, alteraram completamente as concepções arquitectónicas, que já vinham sendo delineadas desde Miguel Ângelo. E é só no século XIX que o barroco adquire este nome, pois, até essa época, era entendido como uma forma de classicismo pós-renascentista.
O período barroco aparece influenciado pelo movimento denominado de Contra-Reforma, pela renovação da escolástica e pelo absolutismo régio. O Concílio de Trento, o Papado e a Companhia de Jesus lançam-se contra a cisão protestante, numa luta religiosa e política, com exaltação doutrinária e a ameaça do inferno, criando um sentimento trágico da vida; as universidades de Coimbra, Évora, Salamanca, Alcalá e outras reanimam o aristotelismo, a dialéctica e as questões escolásticas; a monarquia absoluta fundamenta o seu poder no direito divino e as cortes ostentam o fausto e o luxo. E enquanto a decadência sociopolítica acontece em Espanha, onde Góngora produz uma poesia puramente formal e deslumbrantemente complicada, a França vive com intensidade o esplendor do século de Luís XIV.
Diaz Plaja, na sua "La Literatura Universal", afirma que o barroco "possui uma espécie de engenharia superior da linguagem, uma espécie de álgebra para iniciados que a etapa anterior do conhecimento dos clássicos - o Renascimento - não sabia ou não podia gozar".
A procura do realismo sob pressão de uma religiosidade e espiritualidade, a que não eram estranhas a Igreja e a Inquisição, marca obras de grandes pintores como Caravaggio, Rembrandt, Rubens, Zurbarán ou Velázquez. Também a arquitectura e a escultura aparecem, constantemente, associadas à Igreja e ao seu poder. Em Itália, Borromini deixa-nos obras perturbantes, e marcadas pelo dinamismo da relação interior-exterior; e Bernini é o arquitecto, pintor e escultor de estátuas e fontes, que ao serviço do Vaticano projecta a colunata da praça de S. Pedro e diversas igrejas; em Espanha, há figuras importantes como Gómez de Mora, Pedro Sánchez, António de Andrade e Alonso Cano; em Portugal, o italiano Nasoni deixa uma obra grandiosa no Norte, enquanto o alemão Frederico Ludovice se torna célebre com o convento de Mafra; mas são também dignos de referência André Soares ou Figueiredo Seixas; em França, é Lemercier, Mansart e Le Vau que dão expressão a uma arquitectura de beleza fria mas harmoniosa, como Versalhes, sob o poder dos cardeais Richelieu e Mazarin.
O fenómeno do barroco é, porém, um afastamento da estética renascentista devido à necessidade do ser humano encontrar uma nova expressão de vida, uma outra harmonia na busca da perfeição, da verdade e da luz. Mas este movimento não se deve confundir com o maneirismo, que surge a partir do alto Renascimento e que traduz um estilo ou elegância sofisticada, muitas vezes forçada e complexa, com fortes combinações de cor, procurando retirar significados espirituais da luz. Nele há o dramatismo, a intensidade emocional e o enigmático, em que tudo se eleva na direcção do céu. O barroco, embora exprima o drama humano, afasta-se da complexidade maneirista e evolui para um novo estilo, que procura a grandiosidade harmoniosa.
O novo estilo rompe com a concepção estática e fechada da arte renascentista. A ideia espacial adquire dinamismo, a escultura conjuga-se com a arquitectura, os quadros oferecem gestos expressivos e teatrais, com admiráveis combinações de cores. A unicidade dos modelos de beleza, que caracterizou a época anterior, começa a dar lugar aos gostos, estilos e concepções individuais.
Na sequência do barroco ou assimilando os seus modelos, surge o estilo rococó, que dá realce à decoração pictórica e à elegância estilística, procurando criar espaços ilusórios. Este termo deriva da palavra francesa "rocaille", que se aplicava a um estilo de decoração interior com conchas e obras ornamentais em pedra lavrada. O estilo rococó apresenta-se como uma variação decorativa do barroco, sendo mesmo considerado como barroco tardio. Basta apreciar as pinturas de Watteau, Tiepolo, Fragonard, Hogarth ou as esculturas e a arquitectura dos italianos Salvi (o principal autor da "Fontana de Trevi", em Roma) e Francesco de Sanctis ou dos austríacos Fischer von Erlach ou Hildebrandt.
O Barroco na literatura
A literatura, como forma de arte e expressão do ser humano e da sua vida, vê o termo barroco ser-lhe extensivo. E, tal como as outras expressões artísticas, recorre ao expressivo, à extravagância, à amplificação e ao requinte da forma e do pensamento. As obras literárias procuram formas abertas, com planos diversos, desprezando as estruturas fechadas e as unidades de tempo e de lugar que caracterizava o equilíbrio renascentista. A acumulação de episódios, as perífrases ou os jogos de palavras, de imagens e de conceitos conferem um dinamismo, uma certa contorção plástica.
O barroco, na literatura, caracteriza-se por tentar mostrar a plena inspiração dos autores, quer nas formas, quer nos conteúdos engenhosos de pensamento. O napolitano Giambattista Marini (1568-1625), em Itália, considera que a poesia possui o "desiderio di stupire" (o desejo de produzir o espanto) e, por isso, utiliza excessivos e complicados jogos retóricos na sua obra fundamental "Adone"; em Espanha, o cordovês Luís de Góngora (1561-1624) levou até ao extremo o cultismo (ou culteranismo) em versos de compreensão difícil e de jogos verbais, dentro de uma estética aristocrática e individualista; e Francisco Quevedo (Madrid,1580-León, 1645) que se opôs ao cultismo, criticando-o ferozmente, procura a construção reflexiva e elegante, de grande beleza e profundidade filosófica, apresentando-se assim como um conceptista.
Também Portugal, no rasto de Góngora e de Quevedo, se deixou influenciar quer pelos jogos complicados, pelo verbalismo sonoro, pelas imagens vistosas, pela extravagância formal, quer pela construção mental e a subtileza nos conceitos. É isso que sucede com os poetas da Fénix Renascida e do Postilhão de Apolo ou com o conceptista Padre António Vieira.
O estilo barroco consegue que as imagens classicistas se tornem expressivas, dinâmicas e adquiram movimento, o pensamento envereda pela multiplicação de planos sucessivos e rápidas alusões, o intelectualismo estético universaliza-se, a imaginação barroca procura a alegoria para o desenvolvimento das ideias e para estabelecer a passagem entre a razão e a realidade, o mundo humano e o divino, o material e o espiritual.
Este movimento espalha-se pela Europa, embora as designações literárias apareçam ligadas aos autores ou às obras. Foi o que sucedeu com o marinismo, do italiano Marini; o gongorismo do espanhol Góngora; o eufuísmo, da obra Euphues, do inglês John Lyly; ou com o preciosismo, em virtude das "preciosas ridículas", em Sabichonas, do francês Molière. Em Portugal, no século XVII, o barroco surge nas várias artes e na literatura. São figuras marcantes o P.e Manuel Bernardes, Rodrigues Lobo, D. Francisco Manuel de Melo, Jerónimo Baía, D. Tomás de Noronha, António Barbosa Bacelar, Sóror Violante do Céu, Fr. António das Chagas ou o grande orador Padre António Vieira.
A literatura seiscentista apresenta-se como um jogo de espírito e da mente, com muito rebuscamento e subtileza, cheio de metáforas inéditas e amplificações conceituosas. A profusão de elementos decorativos da frase, os trocadilhos, as hipérboles e até figuras gráficas extravagantes caracterizam o estilo cultista e gongórico, onde a clareza da ideia sai perturbada; o desdobramento discursivo de um conceito ou as relações fictícias e arbitrárias entre ideias e coisas definem o conceptismo. Embora, aparentemente, o barroco seja acusado de falta de clareza, a língua acaba por colher preciosos elementos estilísticos, significativos e técnicos que a enriquecem, dando-lhe maior plasticidade.
Note-se que o jogo poético e conceituoso traduz não apenas uma evolução importante da língua mas contribui, sobretudo, para o amadurecimento da inteligência europeia que descobre quase todas as potencialidades da linguagem. Ao mesmo tempo que esta actividade lúdica procura a fuga à norma e até o distrair da vida, surge a intensificação do pensamento e uma forte tomada de consciência do mundo.
Como sucedeu com as outras artes, a literatura também sentiu o barroco tardio ou rococó, que se revela no preciosismo estilístico e delicadeza e graça com que trata temas voluptuosamente sentimentais, amiudadamente, recorrendo à hiperbolização. Jerónimo Baía, por exemplo, tem um estilo que pode aproximar-se do rococó.
Características do barroco na Literatura
Continuidade da temática do século XVI: bucolismo, petrarquismo, amor, platonismo.
Permanência das características da estrutura externa das composições: classicismo.
Reacção ao século XVI: reflexão moral, evasão, busca dos prazeres espirituais, futilidade de muitos temas.
Preocupação em provocar o espanto, surpreender e aturdir o espírito à força dos ornamentos e burilamentos; arquitectura rebuscada.
Estilo rítmico e movimentado, cheio de cores poéticas: o vermelho dos rubis, da púrpura e das rosas; o verde das esmeraldas ou o azul do mar, do céu e das safiras; o branco dos lírios, das açucenas, do marfim, da prata e do cristal.
A alusão e os subentendidos através das metáfora ou das antítese.
O cultismo ou culteranismo e o conceptismo ou conceitismo.
Cultismo:
Culto da forma e sobreposição de ornamentos;
Complexidade formal e rebuscamento literário, com sacrifício da clareza do conteúdo;
Riqueza vocabular e a alusão;
Uso exagerado das metáfora, das hipérboles e das antíteses e paradoxos, mas também das perífrases, das hipálages, das sinédoques, das anáforas, dos trocadilhos, dos hipérbatos…
Abuso de jogos de palavras, de imagens e de construções.
Conceptismo:
Jogo dos conceitos;
Enigmas e malabarismos intelectuais;
Construção mental e alegoria analógica (que correlaciona realidade e pensamento);
Elegância da subtileza.
(in "CD-ROM Português 11.º ano", Porto Editora)
